O Museu Nacional do Automóvel em Brasília. A hora da coragem

O Museu Nacional do Automóvel

Peculiar, particular embora integrando o Cadastro Nacional de Museus, o Museu Nacional do Automóvel, Brasília, é a expressão da coragem. Escapa aos rótulos convencionais: não é público; não tem prédio suntuoso; não dispõe de ampla relação de funcionários; e, também, não é um galpão atulhado com carros de colecionadores sem garagem, pomposamente chamado Museu. É um Museu, com preocupação didática, informativa, para explicar aos seus visitantes a importância do automóvel no desenvolvimento brasileiro, e ilustrar com veículos, textos, peças, acessórios, literatura, as referências das histórias que ali relembra e conta.

O Museu Nacional do Automóvel, iniciativa da Fundação Memória dos Transportes, entidade privada sem fins lucrativos, reconhecida de Utilidade Pública Federal, foi implantado em Brasília para preservar estes veículos, documentos, história e conquistas da indústria automobilística no Brasil – o que significa salvar a memória da criação da Companhia Siderúrgica Nacional, da Petrobrás, da Fábrica Nacional de Motores, e da indústria de autopeças, marcos da industrialização no país. Supre uma lacuna.

E é atrevido, resume o curador Roberto Nasser.

Colecionador de poucos veículos, interessado em história da indústria automobilística, com o entusiasmo dos que foram para Brasília em seus primeiros anos e acompanharam o desenvolvimento do país, Nasser entendeu haver necessidade de mudar a óptica do colecionar no Brasil, atividade usualmente restrita a agrupar veículos em galpões ou garagens que têm em comum ser inacessíveis ao grande público.

Conhecia o negócio. Ajudara a criar o Veteran Car Clube em Brasília, fora seu presidente, repetira o feito com a Federação Brasileira de Veículos Antigos, previra a expansão do movimento antigomobilista ao propor tornar colecionáveis os veículos nacionais, conseguira inscrever a atividade no Dicionário Houaiss. Percebia, no dia a dia, o distanciamento entre os colecionadores, uns mecenas a preservar a história, e o público que desconhecia os veículos preservados.

Lembra, o automóvel nacional foi a grande alavanca de tecnologia e indutor econômico do crescimento, fazendo referencia entre o pós-IIGuerra, quando o país importava até lâminas de barbear, e a migração da tecnologia dos automóveis aqui iniciados a construir em 1956, para os demais ramos da indústria, especialmente a de autopeças e linha branca.

E faltava contar esta história. Explica, guardar Cadillacs ou Rolls-Royces é importante, entretanto muito mais o é conservar o Jeep Willys que amanhou a terra deste país; que foi carro do vizinho ou da família e nos traz lembranças positivas, ao contrário dos importados, sem ligações com nossa história.

O rumo do Museu Nacional do Automóvel, em Brasília, é este. Juntar veículos de colecionadores locais ou de outros estados; criar eventos temáticos para contar histórias, mostrar relações, situá-las em cenários, exibir os veículos como parte de um momento histórico, social, econômico, tecnológico. Se as pessoas entenderem que o automóvel é mais que um amontoado de ferros, vidros e plásticos, o Museu se justifica. O temor do Curador do Museu é prático: “Somos a última geração que dá valor e tem interesse nos veículos por sua individualidade, forma de construção, pelo DNA das marcas. Daqui para frente, com o processo de acanalhamento que as montadoras vem aplicando aos seus produtos, todos se tornam iguais, difíceis de distinguir, pasteurizados, diferenciando-se apenas pelo frisinho central da grade, pela maçaneta do porta-malas, ou detalhinhos. Na prática são iguais.“

Segundo entende, o desinteresse pelos veículos, o tratá-los com o sem noção de um novo TV ou refrigerador mostrará aos fabricantes a desnecessidade de investir em produtos diferenciados. Aí, dentro de pouco tempo, motores e transmissões serão iguais em marcas diferentes, e a essência do automóvel como reflexo de escolha pessoal terá acabado.

O automóvel brasileiro, na visão do administrador do Museu, deve ser visto como um dos eventos que mudou o país e auxiliou no desenvolvimento da tecnologia. Melhor exemplo, informa, é o processo de transformação aplicado aos primeiros veículos trazidos dos EUA e da Europa para ser produzidos aqui. Inadequados, fracos, sem resistência para as dificuldades brasileiras, foram corrigidos, melhorados, tornados melhores que os produtos na origem. Décadas depois a expertise de fazer veículos resistentes e baratos permitem ao Brasil exportá-los com o rótulo de indestrutíveis em condições norte-americanas ou européias, e fazê-lo a preço reduzido e competitivo. Atualmente os automóveis brasileiros tem reconhecimento mundial como detentores de insuperada tecnologia de construção resistente e baixo preço. São exportados, referenciados por sua durabilidade, portam tecnologia exclusivamente local, como os motores 1.0 mais potentes do mundo e as soluções Flex-Fuel.

Enfim, o Museu

Apresentado, o Museu está numa das avenidas mais importantes do mundo, o Eixo Monumental, em Brasília, ao lado do Memorial JK. Sua área é de aproximados 1.800m2, sendo metade para a exposição de acervo próprio e de colecionadores; parte para eventos e exposições temáticas; e a maior biblioteca especializada no país, com mais de 10.000 fontes de consulta sobre veículos e transporte.

Focado na preservação dos veículos que fizeram a revolução brasileira, contido pela falta de meios para ampliar acervo, o Museu Nacional do Automóvel tem fino foco e mira nos veículos emblemáticos do áureo período inicial da motorização brasileira.

Inicia a história com Fords Modelo T, os primeiros a ser montados no Brasil, e evolui para as décadas de ´50, ´60 e ´70, alinhando representantes das primeiras marcas: Willys, Vemag, Simca, FNM, sempre buscando exemplares referenciais ou que permitam exibir a evolução do produto com o passar do tempo. Bom exemplo são os sedãs Aero Willys: exemplar de 1962, último com carroceria idêntica ao original norte-americano contraposto a uma unidade 1963, criado com estilo nacional. Do FNM tem o TIMB, versão esportivizada, cara, rara, e da qual restaram apenas duas unidades. Na linha, de Simcas reuniu versão Rallye, de 1962, primeira tentativa de fazer modelo diferenciado da origem; logo em seguida um Simca Tufão, versão de maior sucesso da marca; e encerra com um GTX, transformação com equipamentos e decoração esportiva sobre a linha Esplanada, feita sobre os originais Simca e logo descontinuados.

Brasinca GT4200/ Uirapuru, ainda atualizado 40 anos apósNa prática museal, o esforço para localizar a história, dados, fotos, literatura, permitiu resgatar carros de pequena produção, raridades pouco conhecidas. Assim, interessantemente o Museu Nacioal do Automóvel, Brasília, reúne a fina flor da pequena produção, como Willys Gávea, primeiro monoposto construído no Brasil para corridas sul americanas; o FNM Onça, esportivo construído em apenas 5 unidades sobre a plataforma do FNM 2.000; GT Malzoni, uma das 40 unidades produzidas para ser um DKW Vemag esportivo; um elegante Fissore, sedã de duas portas, também sobre o resistente Vemag. Expõe igualmente raro Brasinca GT 4200, revolucionário esportivo que, pela falta de motorização adequada, utilizava motor de caminhão Chevrolet, e sua mudança de perfil operacional, mais o chassi com tecnologia aeronáutica e soluções desenvolvidas em túnel de vento, permitiram atingir 200 km/h em 1964!

Pontualmente, o Alfa Romeo 2300 com o motor número 1; outros para exibir a evolução; Fiat 147 da primeira série; VW SP2; veículos com nomes femininos, participantes de exposição em homenagem ao Dia da Mulher: Alfas Giulietta e Giulia; Borgward Isabella; Mac Laren Julia – rara proposta carioca sobre plataforma de VW Passat; e o picape Chevrolet apelidado Marta Rocha. Representantes oficiais, o último Ford Landau utilizado pela Presidencia da República, e um Willys Itamaraty Executivo, limousine construída em 23 unidades, que prestou serviços ao Ministério das Relações Exteriores.

E exemplares únicos como picape Tempra, protótipo construído e doado pela Fiat; exemplar do Ka Stewart, pela Ford, para Jackie Stewart, Campeão da Fórmula 1, então chefe de sua equipe de Fórmula 1.

Raridades, exclusividades

Segundo o Curador é difícil expressar a maior exclusividade do Museu, pois elas se dividem entre a reduzida quantidade produzida ou remanescente, ou seu peso específico na história automobilística do país.

Neste rótulo, inequivocamente inclui-se o Democrata, da Indústria Brasileira de Automóveis Presidente, iniciativa particular barrada pelo governo da Revolução. Fizeram quatro veículos, nunca vendidos, e o Museu resgatou a história e conseguiu um exemplar.

Entretanto, sob o aspecto de maior satisfação a um projeto de resgate, nos anos de esforços e desgastes para manter operando este equipamento cultural, em mostrar história a mais de 100 mil visitantes, o foco se direciona sobre salvar os Willys, a começar pelo único exemplar do esportivo Capeta, do saqueado escombro do Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, em Caçapava, SP, onde se esboroavam pelo abandono e pelo furto de peças. Foram 11 anos de esforços e, finalmente, com a atuação firme do Marcus Oliveira, então presidente da Ford Motor Company, Brazil, conseguimos salvá-los de um fim indigno.

E o pequeno e esforçado Museu Nacional do Automóvel, Brasília, conseguiu dar seqüência aos esforços do Roberto Lee, fundador do primeiro e agora abandonado museu nacional de veículos, cujo resíduo foi transferiso à Prefeitura de Caçapava, SP.

Em resumo, mantido com recursos privados, mas aberto à população, único dirigido à preservação da história do veículo nacional, o Museu Nacional do Automóvel cumpre sua parte no desafio brasiliense. Aqui é o único destes equipamentos culturais a resistir, impor-se, ter atuação institucional e conquistas legais que se espraiam por toda a atividade antigomobilística no país.

 

Serviço

Museu Nacional do Automóvel, Brasília-DF

SGON Quadra 1, no. 205

Tel. +5561.3225.3000 – fax +5561.3225.5511

e.mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

terça a domingo das 11h às 17h

Acervo de veículos raros, montados ou fabricados no Brasil – embora existam importados referenciais como esportivo Amilcar CS 1922; Cadillac Coupé de Ville 1954; Jaguar MK II e XJ 6L; jeep Ford GPW 1942; jipe VW 181 – Thing.

Serviços: expertise em montagem de coleções; identificação e avaliação de veículos para colecionadores e órgãos da Justiça; vistoria para expedição de Certificado de Originalidade.